Defesas: Ciganos no Brasil e em Portugal, e o papel dos documentários nas lutas dos movimentos sociais

por
Graça Portela
,
08/08/2018

Na próxima semana, serão realizadas duas defesas de tese de doutorado para o Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS). A primeira, que ocorre na segunda-feira, 13/08, é do aluno Aluízio de Azevedo Silva Júnior, intitulada "A Produção Social dos Sentidos nos Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: a apropriação das Políticas Públicas de Saúde para ciganos no Brasil e em Portugal" mapeia e analisa "os processos interculturais de comunicação (produção, circulação e apropriação) das políticas públicas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal". 

Já a tese de terça-feira, 14/08, "O Documentário nas Lutas Emancipatórias dos Movimentos Sociais do Campo: produção social de sentidos e epistemologias do Sul contra os agrotóxicos e pela agroecologia", da aluna Marina Tarnowski Fasanello, analisa "o papel do cinema documentário produzido no contexto das lutas de movimentos sociais do campo que, de um lado, denunciam o uso intensivo dos agrotóxicos pelo agronegócio e seus impactos na saúde e, de outro, anunciam como alternativas a construção de outro modelo agrícola baseado na agricultura familiar e na agroecologia. "

Ambas as teses foram orientadas por Inesita Soares de Araujo, pesquisadora do Laboratório de Comuicação e Saúde, e professora do PPGICS, os dois do Icict, e co-orientada, respectivamente, por Maria Natália Pereira Ramos, da Universidade Aberta - UAb Lisboa (Portugal) e Marcelo Firpo, professor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp)/Fiocruz.
As duas defesas ocorrerão na sala 710, do Prédio da Expansão do Campus da Fiocruz, que fica na Av. Brasil, 4.036, Manguinhos, Rio de Janeiro - RJ.
 

Defesas de Tese de Doutorado

Título: A Produção Social dos Sentidos nos Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: a apropriação das Políticas Públicas de Saúde para ciganos no Brasil e em Portugal

Aluno: Aluízio de Azevedo Silva Júnior

Orientadora: Inesita Soares de Araujo (PPGICS/Icict/Fiocruz)

Segunda Orientadora: Maria Natália Pereira Ramos - Universidade Aberta - UAb Lisboa (Portugal)

Banca:

Titulares:

  • Drª Kátia Lerner- PPGICS/Icict/Fiocruz
  • Dr. Wilson Couto Borges- PPGICS/Icict/Fiocruz
  • Dr. Adriano de Lavor Moreira- Ensp/Fiocruz
  • Dr. José Ivo dos Santos Pedrosa- PPGSC/UFPI 

Suplentes:

  • Drª Márcia de Oliveira Teixeira - PPGICS/Icict/Fiocruz
  • Drª Raquel Aguiar Cordeiro - IOC/Fiocruz

Data: 13/08/2018 - 2ª feira

Horário: 9h

Local: Sala 710, do Prédio da Expansão

Resumo: Esse trabalho é fruto de um esforço coletivo para mapear e analisar os processos interculturais de comunicação (produção, circulação e apropriação) das políticas públicas de saúde para ciganos no Brasil e em Portugal. 

Partindo de um arranjo epistemológico-teórico-metodológico híbrido e multireferencial entre os estudos anticoloniais, via Epistemologias do Sul (Santos, 2016) e os Estudos Culturais e Estudos Semiológicos, via modelo da Comunicação como Mercado Simbólico (Araujo, 2002), organizamos nossas reflexões tendo como eixos as desigualdades sociais e as mediações em torno dos processos de apropriação de tais políticas por parte das pessoas ciganas. Trata-se de uma pesquisa dialógica, realizada no campo da Comunicação e Saude (C&S), cujo principal objetivo se pautou por analisar – e comprovamos que – se as violências físicas e simbólicas, expressas pelas políticas persecutórias e racistas, respectivamente, aplicadas historicamente pelos estados brasileiro e português contra as pessoas ciganas, o que deixou um rastro de pobreza e exclusão, impactam nas condições e situações de vida e saúde dessas comunidades. 

A aplicação das epistemologias do Sul e seus procedimentos como as sociologias das ausências e das emergências e as ecologias dos saberes e dos reconhecimentos, nos possibilitou a construção de um saber compartilhado junto ao movimento político cigano, valorizando as suas vozes, olhares e saberes, que foram silenciados ou invisiblizados pelas sociedades ocidentais e a ciência hegemônica, comprovando que mantêm uma sofisticada filosofia de vida, que estrutura um sistema de ação e organização sócio-cultural, lhes permitindo resistir às opressões e dominações do capitalismo e do colonialismo. Já as categorias trazidas pelo mercado simbólico e sua matriz de mediações, nos permitiu mapear os principais interlocutores, suas comunidades discursivas, instâncias, campos, seus fatores e fontes de mediação, revelando contextos da elaboração, circulação e apropriação da saúde cigana nos dois países. 

Para dar consistência e horizontalidade entre as vozes ciganas que participaram da pesquisa de campo e as vozes teóricas e acadêmicas e às oficiais estatais, que já têm alto poder de interlocução, colocamos em prática uma metodologia experimental, baseada numa matriz fílmica intercultural e semiológica, aos moldes antropológicos compartilhados de Jean Rouch, mas hibridizada com elementos das três matrizes mencionadas. 

Entre os conceitos aportados, destacam-se: a provocação (Rouch), a negociação (Rouch, 1975, Rouch e Ribeiro, 2007), o lugar de interlocução (Araujo, 2002), a tradução intercultural e tradução interpolítica (Santos, 2007 e 2017) e a criação (Rouch). Esse entrelaçamento mostrou-se viável tanto como possibilidade de mapeamento do fluxo comunicacional e simbólico, como de produção de um conhecimento com as pessoas ciganas e não sobre elas, o que fez toda diferença. 

Como resultados, comprovamos a pertinência do conceito de Tradução para a produção de em conhecimento crítico na área da comunicação e saúde, visto que entre as inovações do nosso trabalho está a concretização do início de um intercâmbio de saberes entre os movimentos políticos ciganos brasileiro e português. Esse arranjo proporcionou de fato uma intervenção na realidade estudada, denunciando ausências e negligências na saúde cigana, além de fazer emergir questões como contextos e temas comuns, diferenças, demandas e lutas por igualdade racial e inclusão comunicacional na saúde. Mas a comunicação só será emancipatória, transformadora das injustiças sociais e propulsora da cidadania se trouxer a possibilidade do exercício do direito à comunicação, que converte o ator social em ator político, para agir e transformar o mundo.

 

Título: O Documentário nas Lutas Emancipatórias dos Movimentos Sociais do Campo: produção social de sentidos e epistemologias do Sul contra os agrotóxicos e pela agroecologia

Aluna: Marina Tarnowski Fasanello                                                               

Orientadora: Inesita Soares de Araujo (PPGICS/Icict/Fiocruz

Segundo Orientador: Marcelo Firpo de Souza Porto (PPGSP/Ensp/Fiocruz)

Banca:

Titulares:

  • Dr. Valdir de Castro Oliveira- PPGICS/Icict/Fiocruz
  • Drª Márcia de Oliveira Teixeira- PPGICS/Icict/Fiocruz
  • Drª Raquel Maria Rigotto- PPGSC/UFC
  • Dr. João Carlos Freitas Arriscado Nunes- PDGCI/Universidade de Coimbra (Portugal)
  • Dr. Fernando Ferreira Carneiro- PPGSF/Fiocruz-CE 

Suplentes:

  • Dr. Janine Miranda Cardoso PPGICS/Icict/Fiocruz
  • Dr. Adriano de Lavor Moreira- Ensp/Fiocruz

Data: 14/08/2018 - 3ª feira

Horário: 9h

Local: Sala 710, do Prédio da Expansão

Resumo: A tese analisa o papel do cinema documentário produzido no contexto das lutas de movimentos sociais do campo que, de um lado, denunciam o uso intensivo dos agrotóxicos pelo agronegócio e seus impactos na saúde e, de outro, anunciam como alternativas a construção de outro modelo agrícola baseado na agricultura familiar e na agroecologia. 
Os documentários são compreendidos a partir de dois referenciais teóricos que envolvem e buscam articular duas dimensões, a comunicacional e a epistemológica. A primeira dimensão compreende os documentários como estratégia de comunicação e pluralidade de vozes, enquanto textos e contextos ancorados na teoria da produção social dos sentidos e em conceitos como dialogismo e polifonia provenientes da obra de Bahktin. A segunda dimensão incorpora a obra de Boaventura de Sousa Santos e sua proposta de epistemologias do Sul, incluindo conceitos como pensamento abissal, ecologia de saberes, sociologias das ausências e das emergências, e metodologias colaborativas não extrativistas. 

As dimensões comunicacionais e epistemológicas foram analisadas a partir de três lugares de interlocução, que se relacionam na produção dos filmes: a dos movimentos sociais, dos pesquisadores militantes principalmente no âmbito da saúde coletiva, e dos cineastas engajados nas lutas sociais. Foram selecionados três documentários para a análise de sua produção: “O Veneno está na Mesa”; “Chapada do Apodi, Morte e Vida”; e “Nuvens de Veneno”. A partir de entrevistas com representantes estratégicos dos movimentos sociais, dos cientistas e dos cineastas, foram analisados o contexto (condições de produção) e o texto (o filme em si a partir das cenas que os compõem) para cada documentário e em seu conjunto. 

Na análise conjunta dos filmes foram destacadas três questões de interesse: polifonia e sociologia das ausências, ecologia de saberes, e por fim metodologias colaborativas não extrativistas. Concluímos que os documentários analisados contribuem, pela capacidade de reunir ciência, arte e ética com práticas de co-labor-ação, co-produção e cocriação para criar novas estratégias comunicacionais e epistemológicas.
 

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Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz)
Av. Brasil, 4.365 - Pavilhão Haity Moussatché - Manguinhos, Rio de Janeiro
CEP: 21040-900 | Tel.: (+55 21) 3865-3131 | Fax.: (+55 21) 2270-2668

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