Retrospectiva 2023: dados em saúde, preservação e premiações marcam o ano no Icict

por
Assessoria de Comunicação do Icict
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27/12/2023


A escritora e jornalista Eliane Brum, durante aula inaugural do Icict em 2023 - Foto: Raquel Portugal (Icict/Fiocruz)

“Uma democracia do século XXI só pode fazer sentido se abarcar os direitos da natureza.” A frase é da jornalista e escritora Eliane Brum, durante a aula inaugural de 2023 do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz). E sintetiza o espírito que permeou o trabalho da unidade durante o período, ao chamar atenção para o quanto é urgente encarar a saúde em suas múltiplas dimensões, fator essencial para o fortalecimento dos direitos e para a defesa da vida.  

Dois mil e vinte e três foi o ano em que a covid-19 deixou de ser, oficialmente, uma emergência de saúde pública. O acirramento de inúmeras outras crises, porém, enfatizou as marcas deixadas pela pandemia no Brasil, e as muitas ameaças que ainda impedem o exercício pleno da cidadania. Como, por exemplo, a tragédia humanitária vivida pelos povos do território Yanomami. 

Em 2023, o Icict prosseguiu realizando pesquisas com informação e dados em saúde que revelam as dimensões dessas crises. O Grupo de Trabalho Geo-Yanomami — parceria com outras instituições —, por exemplo, divulgou um estudo que mostra que mais da metade das comunidades Yanomami estão vivendo em situação de risco para a saúde.

Não à toa, a Fiocruz esteve representada pela primeira vez na Conferência do Clima da ONU (COP), realizada entre os dias 30 de novembro e 12 de dezembro, em Dubai (Emirados Árabes). O pesquisador do Observatório de Clima e Saúde, Christovam Barcellos, integrou a comitiva e apresentou o trabalho realizado pelos cientistas. 

indígenas em redes
Cena do documentário 'Xawara e Saúde' - Crédito: Paulo Lara (VideoSaúde/Fiocruz)

Em abril, uma equipe da VideoSaúde Distribuidora viajou até Boa Vista (RR) para produzir um documentário sobre a emergência sanitária que atinge os povos Yanomami. A expedição gerou o documentário Xawara e Saúde, de Daniela Muzi, que busca ampliar o debate sobre a saúde indígena e os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). 

Dados em saúde 

No decorrer do ano, inúmeras pesquisas buscaram chamar atenção para pautas urgentes, oferecendo subsídios para gestores em saúde. 

Os levantamentos realizados pelo Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância - Fiocruz/Unifase) revelaram, por exemplo, um quadro preocupante em relação à obesidade infantil. Entre 2019 e 2021, período que engloba a pandemia de covid-19, o número de crianças com excesso de peso no país cresceu 6,08%. O aumento entre os adolescentes foi ainda maior: de 17,2%. 

O crescimento no consumo de opioides como o fentanil foi outro alerta de destaque, como mostrou artigo assinado pelo pesquisador Francisco Inácio Bastos e publicado em julho na revista The Lancet Americas. 


Seminário sobre mobilidade urbana - Foto: Matheus Batista/Divulgação

E o trabalho de plataformas e sistemas de dados em saúde se fortaleceu ainda mais no instituto. A Plataforma de Ciência de Dados aplicada à Saúde (PCDaS) incorporou, por exemplo, os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana (Pemob). E realizou em dezembro o I Seminário Regional de Gestão de Dados em Mobilidade Urbana, em parceria com a Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana (Semob) do Ministério das Cidades (MCID). No Brasil, dados sobre mobilidade urbana podem dizer muito sobre a saúde das pessoas. Temas variados como acidentes, emissão de poluentes, sustentabilidade, tempo gasto em deslocamentos permeiam o debate sobre mobilidade, e o acesso a informações bem estruturadas podem ser valiosos insumos para a elaboração de políticas públicas. 

Marielle e Marmo  

Outra atividade marcante em 2023 foi realizada na semana em que se completaram cinco anos da morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, assassinados a tiros no Rio de Janeiro, em março de 2018. A luta e a memória da vereadora foram lembradas durante o evento “MARIELLE VIVE! Favelas na Reconstrução do País”. Promovido pelo Dicionário de Favelas Marielle Franco, o encontro foi realizado na Biblioteca de Manguinhos, e contou com exposição fotográfica, mesas de discussões e performance cultural. 


Grupo Afoxé Ore Lailai, durante abertura da exposição 'Marmo' - Crédito: Raquel Portugal (Icict/Fiocruz)
Em maio, a Biblioteca de Manguinhos foi palco para a reinauguração da mostra “Marmo: reencontro com o ofá cuja voz ecoa”. Uma celebração ao ativista José Marmo, que ousou incluir o viés das religiões afro-brasileiras e a negritude sob a ótica da saúde. A exposição apresentou mais de 400 objetos, entre cartões-postais, fotografias, vídeos, boletins informativos e outras publicações da Coleção José Marmo, que foi doada em 2020 à Biblioteca de Manguinhos. 

Projeto Político Pedagógico 

Para enfrentar os desafios de nossos tempos, fundamental investir na formação de cientistas e profissionais. Em março, aconteceu o I Encontro de Educação do Icict, quando toda a comunidade do instituto foi convidada a refletir sobre como construir um espaço mais inclusivo e diverso, na busca por qualificar pesquisadores e trabalhadores da saúde. Na ocasião, foi lançado o Projeto Político Pedagógico do Icict, documento que expressa sua proposta educacional nos campos da Comunicação e da Informação em Saúde. 


O Projeto Político Pedagógico (PPP) foi apresentado durante o I Encontro de Educação - Foto: Raquel Portugal (Multimeios/Icict)

A partir da pergunta “O que esperar para o futuro da pesquisa no Icict?”, foi realizado nos dias 3 e 4 de agosto o I Encontro da Pesquisa. O evento, organizado pela vice-direção de Pesquisa do Icict, reuniu pesquisadores e pesquisadoras para dialogar sobre os avanços e desafios da área e, principalmente, para promover uma maior integração. 

Outro evento importante para a gestão participativa e democrática que dá base ao Icict foi a eleição das novas chefias de setores, realizada em setembro. Os novos líderes foram eleitos pelo voto direto dos servidores, e permanecerão no cargo de 2023 a 2025.  

Divulgação científica e acesso aberto 

Em 2023, o Icict criou seu Coletivo de Divulgação Científica, com representantes de diferentes setores, para fortalecer as reflexões e as ações sobre o tema. Ao mesmo tempo, lançou produtos e iniciativas que buscam ampliar sua comunicação com a sociedade. 


Jogos 'Imune' e 'Caminhos de Oswaldo' - Crédito: Divulgação

É o caso de "Caminhos de Oswaldo" e "Imune", jogos offline que foram lançados em  novembro, em parceria com o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Os jogos foram criados como uma forma lúdica de apresentar cientistas brasileiros e as principais doenças tropicais a adolescentes e jovens – e também como um importante alerta sobre fake news e desinformação.  

A Porto Livre, plataforma de livros em acesso aberto da Fiocruz — coordenada pelo Icict — encerra o ano com 400 obras disponíveis ao público, de forma gratuita. E, em 2023, lançou sua versão para o público infantojuvenil: a Portinho Livre. A nova página reúne títulos voltados a crianças e adolescentes que abordem temas sobre saúde, ciência e cidadania. E, além de disponibilizar em acesso aberto obras já existentes, é também um selo editorial. Seu primeiro lançamento foi o livro Maria Rosa, o amor e as vacinas, escrito por Sônia Rosa e ilustrado por Graça Lima. 


Ilustração de Graça Lima, no livro 'Maria Rosa, o amor e as vacinas' - Crédito: Reprodução/Portinho Livre

Além disso, o Icict promoveu o I Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil. Com o tema “O bonde da vacina: cuidar de si para cuidar do outro”, recebeu textos de adolescentes de todo o Brasil. As 40 melhores redações vão compor um livro. E o primeiro colocado — o estudante Luiz Felipe Lemos Amorim, de São Luís do Maranhão — recebeu como prêmio uma viagem para o Rio de Janeiro, onde participou da cerimônia de abertura da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da Fiocruz. 

Na busca por fortalecer a comunicação pública e o debate com a sociedade, o Icict pôs em pauta a importância da linguagem simples na rotina da instituição. Para isso, realizou oficinas, abertas à comunidade Fiocruz, e lançou o Guia de Linguagem Simples do Icict. 

E a Reciis (Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde) encerra o ano com quatro dossiês sobre temas fundamentais para o campo: "Gestão da informação e da comunicação em saúde", "Arquivo, memória e saúde", "Saúde digital" e "O povo da rua: saúde, políticas públicas e comunicação".

Audiovisual 

Em 2023, a VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz completou 35 anos de idade, e uma marca importante: sua Plataforma de Filmes em Acesso Aberto encerra o ano com 300 obras audiovisuais disponíveis gratuitamente. O acervo reúne ampla diversidade de filmes sobre temas de saúde coletiva e ciência e tecnologia. 

Já a série Vozes da Saúde chegou a 60 episódios, apresentando experiências e serviços de saúde pública e coletiva. Produzida pela Plataforma IdeiaSUS Fiocruz e a VideoSaúde Distrubuidora, reúne retratos de lutas, desafios, criatividade, compromisso, avanços, medos e alegrias de trabalhadores e trabalhadoras do SUS e da sociedade civil organizada. 

A temática da preservação audiovisual ganhou ainda mais força em 2023, situando o Icict como referência no tema. Uma novidade foi o lançamento do Plano de Digitalização dos Documentos Videográficos da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz. O documento, disponível em acesso aberto, estabelece diretrizes baseadas em normas e padrões reconhecidos internacionalmente no campo da preservação digital. 

Outra novidade foi o desenvolvimento do Sistema de Gestão da Preservação (versão 1.0) da VideoSaúde, e a parceria criada com a Fundação Casa de Rui Barbosa, para a troca de expertise e o apoio mútuo em ações de preservação em convergência com um ambiente de RDC (Repositório Digital Confiável). 


Medalha Rui Barbosa 2023: Icict foi uma das instituições homenageadas | Foto: Vanor Correia (Multimeios/Icict)

Aliás, em novembro o Icict recebeu a Medalha Rui Barbosa 2023, conferida pela Fundação Casa de Rui Barbosa. O prêmio foi um reconhecimento pelo projeto Preservação Digital de Acervos Arquivísticos da Fundação Casa de Rui Barbosa e da Fundação Oswaldo Cruz. 

Bibliotecas 

A Biblioteca de Manguinhos encerra o ano com muitas conquistas. Uma delas é o aumento de 102% nas digitalizações de suas obras. Além disso, registrou aumento de 152% no número de novos usuários, e a redução significativa de 44% nas devoluções em atraso. A oferta de treinamentos online também foi destaque: 15 sessões envolveram 4803 participantes, um aumento de 248%. Mais de 1654 livros e 4897 periódicos foram consultados no período. 


Evento de comemoração dos 123 anos da Biblioteca de Manguinhos - Foto: Rodrigo da Cunha Méxas (Multimeios/CTIC/Icict)

A Rede de Bibliotecas Fiocruz, coordenada pelo Icict, trabalhou em diferentes frentes para ampliar o acesso à informação científica em saúde para a sociedade. Para aumentar a visibilidade dos trabalhos acadêmicos lançou, após consulta pública, o Manual de Normalização dos trabalhos acadêmicos da Fiocruz.  

Na seara da Preservação Digital, atuou em parceira com o Laboratório de Digitalização do Icict e com as Bibliotecas de Saúde Publica, de Manguinhos e da Saúde da Mulher e da Criança, na digitalização de mais de 75 mil páginas. Estas obras, disponíveis agora online, representam material de grande relevância para o campo da saúde. 

Também promoveu cursos de qualificação para bibliotecários e para alunos de pós-graduação. Além de ter feito a primeira edição da Oficina Digitalização de Acervos em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), voltada a trabalhadores da Fiocruz.

Debates sobre o futuro 

O Icict marcou presença na 17ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), inclusive no processo de debates preparatórios para o grande evento.  

Em maio, ocorreu uma das etapas da Pré-Conferência Livre, Democrática e Popular de Saúde. Com o tema “Envelhecimento e Saúde: Em defesa do SUS e da democracia”, a atividade buscou agregar a população brasileira na construção de propostas para um envelhecimento digno e saudável. Foi uma iniciativa coletiva de diferentes parceiros, dentre eles o Icict, por meio de seu Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento (Gise). 


Participantes do evento Políticas Digitais em Debate, realizado em Brasília - Foto: divulgação

Durante todo o ano, o Icict participou de encontros para a construção de políticas públicas em suas áreas de atuação. Como, por exemplo, eventos que reuniram gestores e especialistas para debater políticas digitais, proteção de dados e o enfrentamento à desinformação. 

Premiações 

Dois mil e vinte e três também foi um ano de muito reconhecimento para a unidade. 

O pesquisador do Icict, Christovam Barcellos, foi homenageado durante a 17ª edição da Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças – ExpoEpi, realizada em Brasília, “pela sua relevante contribuição para o desenvolvimento das ações de epidemiologia, prevenção e controle de doenças no país”. 


Christovam Barcellos recebendo homenagem na ExpoEpi - Foto: acervo pessoal

Christovam também foi listado, junto à pesquisadora Célia Landmann Szwarcwald, no ranking internacional de cientistas do portal Research.com, que destaca, a cada ano, os 100 mil cientistas mais influentes do mundo. 

O Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS) teve dois trabalhos agraciados no Prêmio Oswaldo Cruz de Teses 2023: um deles eleito a melhor tese na área de Ciências Humanas e Sociais. E dois trabalhos de alunas do PPGICS também foram premiados na edição 2023 do Prêmio Intercom de Pesquisa em Comunicação. A dissertação Quando o outro fala por si: Gradiente de participação popular em ações de comunicação da Fundação Oswaldo Cruz em tempos de pandemia, de Luiza Gomes Henriques, foi a primeira colocada da modalidade Mestrado Acadêmico. Na modalidade Doutorado, Tatiana Clebicar Leite foi contemplada com o terceiro lugar por sua tese intitulada 'Transver o mundo’: o Dia Nacional da Visibilidade Trans pela ótica de pessoas, campanhas e notícias.

Duas iniciativas geradas no Icict foram premiadas na 6ª Feira de Soluções para a Saúde 2023, realizada em Brasília, em novembro, e que teve como tema “Transformação digital na saúde”. O Projeto de Avaliação do Desempenho do Sistema de Saúde (Proadess) e o protótipo JUDJe (Sistema de banco de dados em judicialização da saúde), que nasceu a partir da tese de doutorado de Jânio Gustavo Barbosa, foram os primeiros colocados em suas categorias. 

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Av. Brasil, 4.365 - Pavilhão Haity Moussatché - Manguinhos, Rio de Janeiro
CEP: 21040-900 | Tel.: (+55 21) 3865-3131 | Fax.: (+55 21) 2270-2668

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