Quando o passado faz a diferença no cuidado e planejamento da saúde dos idosos

por
Graça Portela
,
27/11/2014

Em entrevista ao site do Icict, o pesquisador Hirám Sánchez e a coordenadora do Sisap-Idoso, Dália Romero falam da possível parceria entre a Fiocruz e a Universidade de Wiscosin-Madison.

Por que é importante estudar a saúde do idoso?

Hirám Sánchez - Por várias razões. Essa população está crescendo muito rápido em muitos países, principalmente nos países latino-americanos; é um grupo que tradicionalmente é pouco estudado e sabemos pouco desse grupo, e é importante sabermos como este grupo está crescendo.

O que é o projeto "As condições de saúde da pessoa idosa na América Latina" (Health Conditions Among Elderly in Latin America)?

Hirám Sánchez - Uma das razões principais do projeto é que sabemos muito pouco sobre a história de mudanças de mortalidade nos últimos cinquenta anos, na América Latina, em particular. E como demógrafo, me interessa saber a dinâmica da população e, para isso, estamos analisando os dados do passado para que nos permita entender o futuro. 

O LAMBda é uma base de dados sobre pessoas idosas. A partir dos dados coletados, qual a característica mais marcante nas capitais analisadas sobre a saúde e vida dos idosos?

Hirám Sánchez - Selecionamos esses países por conta da disponibilidade de dados, porque são países em que pudemos obter informações para construir essa base. Por exemplo, Cuba tem dados desde 1845; e outros países como México e Uruguai, desde 1695 e 1770, respectivamente. E o Brasil, desde os anos de 1950.

A característica principal é que o aumento da esperança de vida na América Latina tem sido mais rápida do que em toda a humanidade, inclusive, tão ou mais rápida que o Japão. Por exemplo, Cuba aumentou a sua esperança de vida mais rápido do que o Japão e em um período de tempo mais curto. São alguns casos interessantes que temos encontrado por enquanto.

O senhor trabalha no desenvolvimento de metodologias demográficas para estudar a população adulta, sob o aspecto da saúde em nível nacional e individual. O que mais aproxima, em termos de saúde do idoso, tanto no México, nos Estados Unidos e no Brasil?

Hirám Sánchez - Creio que as estruturas de México e Brasil são relativamente mais similares, quanto à limitação e incapacidade do idoso. Um dos trabalhos que fiz foi comparando a cidade do México à cidade de São Paulo, em relação às zonas urbanas.

Há uma diferença em relação aos Estados Unidos: a mudança adulto-idoso aconteceu há muito tempo. As semelhanças são que há muitos idosos de origem latino-americana e mexicana - imigrantes, e aí temos uma aproximação com o México. A condição de saúde deles nos EUA são semelhantes às condições de saúde dos idosos que vivem no México.

Suas pesquisas apontam para um recorte sobre raça e gênero da população idosa?

Hirám Sánchez - Sim, fizemos um recorte por gênero. Mas, por raça não fizemos porque no México não há inquéritos em que se pergunta isto e não existe o conceito de raça, ou melhor, não se coleta essa informação. Nos Estados Unidos, já existe o conceito de raça, mas apenas para brancos e afroamericanos, e um pouco de conceito étnico para os latinos e esses, especialmente, foram os grupos que nos propusemos a estudar nos EUA.

Em sua pesquisa, o senhor está associando o aumento da expectativa de vida na redução ou aumento da morbidade. O senhor poderia falar um pouco sobre isso?

Hirám Sánchez - Tradicionalmente se pensava que o aumento de vida levaria a uma melhora da saúde, mas estudos recentes mostram que não necessariamente. Há casos em que é possível viver muito com uma boa condição de saúde, como por exemplo, no Japão. Nos Estados Unidos, certos setores da população. Mas, mesmo lá, em certos casos, temos encontrado diferenças que mostram que outros fatores influenciam, como diferenças sócio-econômicas.

O senhor conheceu o trabalho desenvolvido pelo Lis, como o Sisap-Idoso. Há alguma perspectiva de parceria ou intercâmbio com o Icict/Fiocruz?

Hirám Sánchez - Sim, porque nossos trabalhos são similares, embora com enfoques distintos, pois estamos interessados em saber as condições de saúde e as mudanças na saúde do idoso. Temos algumas informações que podemos trocar como a questão das internações hospitalares e morbidade, que não temos, mas que aqui vocês coletam. Isto nos interessa.

Por exemplo, no México é difícil obter essa informação, ela não existe. É interessante chegar a esse nível de especificação que se alcançou aqui no Brasil. Temos outras informações que vocês não têm, como o estudo da saúde dos idosos no passado mais distante. Poderíamos complementar e realizar uma troca de informações.

Qual o interesse em se analisar o passado da pessoa idosa?

Dália Romero - Os inquéritos tradicionalmente trazem perguntas sobre o momento em que este idoso está vivendo, como está vivendo e, aí relacionarmos com a condição de saúde. Por exemplo, se é uma situação de pobreza indica que, na maioria dos casos, a saúde estará comprometida em função disto.

Creio que seria interessante saber o lugar onde os idosos de hoje cresceram, se foi na zona rural, que é mais característico para avaliarmos algumas questões como a má nutrição ou uma alimentação adequada.

Hirám Sánchez - Entre os mais ricos há muita diferença. Nos estudos que estamos vendo hoje isto está aparecendo. Alguns viveram em zonas rurais e outros já viveram em zonas urbanas. Estas informações são importantes para se analisar a saúde do idoso.

Dália Romero - Já trocamos algumas ideias sobre isso, como trabalhar mais com a produção da informação – precisamos entender a saúde do idoso com uma perspectiva mais a longo prazo – como foi a vida passada das pessoas hoje idosas, que condições eles viveram quando eram jovens, por exemplo. Isto nos ajudaria muito a entender as condições de saúde atuais e fazer novas propostas.

No caso do Laboratório de Informação em Saúde (Lis), que trabalhamos com informação em saúde, temos que pensar que um inquérito de saúde não pode se referir apenas à situação atual, mas também saber a sua história passada, para poder explicar quais são as referências no envelhecimento das pessoas.  

E quanto ao papel da Fiocruz?

Dália Romero - A Fiocruz tem uma discussão rica e forte em relação à saúde, e têm muitos desafios, mas embora ela reconheça em seu plano quadrienal que o envelhecimento é importante, o tema não está acompanhado de um desenvolvimento institucional. Nesta área, a Fiocruz precisa ampliar as parcerias importantes e a visita do pesquisador Hirám Sánchez vem a reforçar isso.

Além disso, ele trabalha com uma equipe que é uma referência nos EUA, liderada pelo professor Alberto Palloni, que é um demógrafo que trabalha com dados sobre a América Latina há mais de 20 anos.

Quero ressaltar que a presença de Hiram Sanchez é uma força para mostrar a demografia inserida na área da saúde. A Fiocruz, pelo que ela representa, pouco se relaciona com a área da demografia. Mas, não é um problema da Fundação. Não há uma proximidade entre a saúde e a demografia. Então, esta parceria é simbólica para aproximar estas duas áreas, tanto nacional, quanto internacionalmente, dentro de uma casa como a Fiocruz, que tem uma responsabilidade enorme em entender a saúde, especialmente, de uma população de saúde mais negligenciada, como é o caso da do idoso.

(Foto: Graça Portela / Ascom / Icict)

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