Entrevista: pesquisadores apresentam estudo sobre uso de práticas integrativas e complementares durante a pandemia

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Assessoria de Comunicação do Icict/Fiocruz
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08/09/2020

Em poucos dias, a pesquisa “Uso de Práticas Integrativas e Complementares no contexto da Covid-19 (PICCovid)”, lançada em 25 de agosto pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), da Fiocruz, já recebeu mais de 7 mil respostas. O estudo pretende estabelecer um perfil de utilização das práticas integrativas e complementares em saúde (PICS) durante a pandemia. Os pesquisadores lembram que as PICS não substituem o tratamento convencional ou também chamado de tradicional, servindo como complemento, e que não existe comprovação científica de que essas práticas previnam ou curem a Covid-19. “Sendo assim, a população deve seguir as normas sanitárias vigentes para a prevenção da transmissão da doença, como o distanciamento pessoal, uso de máscaras e lavagem de mãos, procurando atendimento médico ao apresentar os sintomas”, ressalta Cristiano Siqueira Boccolini, pesquisador em Saúde Pública do Laboratório de Informação em Saúde (LIS/Icict) e um dos autores do projeto, feito em parceria com a pesquisadora Patricia de Moraes Mello Boccolini, professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Unifase), e com a colaboração de Cristina Rabelais, também pesquisadora do LIS.A pesquisa tem como base um questionário online, que pode ser respondido por qualquer pessoa (médicos, terapeutas, pacientes, pessoas com ou sem sintomas de Covid-19 etc). O Observatório Nacional de Saberes e Práticas Tradicionais, Integrativas e Complementares em Saúde (ObservaPICS), coordenado pela pesquisadora Islândia Carvalho e sediado no Instituto Aggeu Magalhães (IAM/Fiocruz Pernambuco), no Recife, e referência nacional no tema, é também parceiro na iniciativa.

As PICS são recursos preventivos e terapêuticos que auxiliam na promoção da saúde, integrando a medicina complementar:  acupuntura, meditação, yoga, homeopatia, musicoterapia, plantas medicinais, quiropraxia, reiki e shantala, entre outros. O Sistema Único de Saúde (SUS) já reconhece oficialmente 29 dessas terapias e oferece atendimento para várias delas. Informações do Ministério da Saúde apontam que o uso das PICS no âmbito do SUS vem aumentando: em atividades coletivas, por exemplo, como yoga e tai chi chuan, o crescimento foi de 46% entre 2017 e 2018. Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) são mais de 2 milhões de atendimentos. Nesta entrevista, Cristiano e Patrícia explicam melhor como é e quais os objetivos da pesquisa.

Patricia de Moraes Mello Boccolini, professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Unifase)

Quais os objetivos da pesquisa 'Uso de Práticas Integrativas e Complementares no contexto da Covid-19 (PICCovid)'?

Patrícia Boccolini: Queremos estabelecer um perfil de utilização das práticas integrativas e complementares em saúde (PICS) durante a epidemia de Covid-19, para identificar que população utiliza mais essas práticas, e se o seu uso esteve associado com doenças crônicas preexistentes, com a presença de sinais e sintomas de Covid-19, ou mesmo para o autocuidado. Acreditamos que os dados coletados pela pesquisa poderão fornecer informações a fim de subsidiar a construção de ações que possibilitem responder aos interesses e demandas da população visando à melhoria de qualidade de sua saúde. O estudo já conta com mais de 7 mil respostas, repassadas por meio de mensagens instantâneas (principalmente WhatsApp) e por e-mail. O preenchimento eletrônico do questionário se dá em menos de dez minutos e as respostas são armazenadas em um servidor seguro da Fiocruz.

O que são as PICS? Quais são os principais efeitos benéficos para a saúde humana?

Cristiano Boccolini: São tratamentos que utilizam recursos terapêuticos para a prevenção de agravos, promoção e recuperação da saúde, tendo em comum a ênfase no modelo de atenção centrada na integralidade do indivíduo. Em 2017, a unidade de Medicina Tradicional e Complementar (MTC) da Organização Mundial de Saúde (OMS) foi renomeada para Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI), com o objetivo de englobar aborgadens integrativas tanto da MTC como da medicina convencional, ampliando o olhar sobre o ser humano e os processos saúde-doença. A ayurveda e medicina tradicional chinesa são exemplos dos denominados sistemas médicos complexos. As PICS podem ser estruturadas de acordo com o método de tratamento, como acontece com fitoterapia e plantas medicinais, cuidados manuais (acupuntura, quiropraxia, osteopatia, massagens), terapias corpo-mente (tai chi chuan, yoga, lian gong, meditação, bioenergética) ou terapia de grupo de apoio, como a metodologia brasileira conhecida como Terapia Comunitária Integrativa. As práticas têm como prioridade a melhoria da qualidade de vida, e podem atuar de forma complementar aos tratamentos convencionais tanto para tratar doenças, especialmente doenças crônicas, como na prevenção, promoção e manutenção da saúde, se alinhando às diretrizes de saúde da OMS e do Ministério da Saúde (MS).

Cristiano Siqueira Boccolini, pesquisador em Saúde Pública do Laboratório de Informação em Saúde do Icict (Foto: acervo pessoal)

 
É verdade que a busca por essas práticas tem sido cada vez maior, inclusive através do SUS?

Patrícia Boccolini: O SUS institucionalizou as PICS em 2006 com a publicação da Portaria GM/MS nº 971/2006, que criou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC), com inserção na Atenção Básica e demais níveis do sistema. Isso configura uma ação de ampliação de acesso e qualificação dos serviços, na tentativa de envolver a integralidade da atenção à saúde da população. A política foi ampliada com as Portarias GM/MS nº 849/2017 e nº 702/2018. Atualmente, o SUS conta com 29 práticas e terapias. As PICS são oferecidas nas Unidades de Saúde da Família, em postos de saúde, centros especializados e em hospitais terciários como uma forma de assistência integral à saúde física, mental e emocional e promovendo o autocuidado. Segundo informações do MS, o uso das PICS no âmbito do SUS vem aumentando a cada ano. Nas atividades coletivas, como yoga e tai chi chuan, o crescimento entre 2017 e 2018 foi de 46%, passando de 216 mil para 315 mil. Atualmente, 4.365 municípios ofertam atendimentos individuais em PICS, incluindo todas as capitais. A distribuição dos serviços de PICS por nível de complexidade está em 78% na Atenção Básica, 18% na média e 4% na alta complexidade. Nas UBS são mais de 2 milhões de atendimentos, sendo mais de 1 milhão Medicina Tradicional Chinesa, incluindo acupuntura, 85 mil em fitoterapias e 13 mil de homeopatias.

Na área da saúde, e na sociedade de maneira geral, há muito preconceito com relação às práticas integrativas (ainda vistas às vezes como terapias “alternativas”)? Qual a importância da ampliação das possibilidades de modelos de cuidado e de se enxergar a atenção à saúde em sua complexidade?

Cristiano Boccolini: Muitas vezes o termo “medicina alternativa” ou “terapia alternativa” é erroneamente utilizado, pois as PICS são recursos terapêuticos que atuam de forma complementar e integrativa com a medicina convencional, e não de forma substitutiva. As PICS podem ser usadas durante a pandemia, nesse período de isolamento social, para a melhoria da qualidade de vida, autocuidado, equilíbrio mental e emocional, e até mesmo de forma complementar no tratamento de sinais e sintomas comuns de resfriados e da própria Covid-19. É importante salientar que as PICS não substituem o tratamento convencional ou também chamado de tradicional. Elas são um adicional, um complemento, sendo indicadas por profissionais específicos conforme as necessidades de cada caso. Ainda não existe comprovação científica que as PICS previnam ou curem a Covid-19. Sendo assim, a população deve seguir as normas sanitárias vigentes para a prevenção da transmissão, como o distanciamento pessoal, uso de máscaras e lavagem de mãos, procurando atendimento médico ao apresentar os sintomas da doença.

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