Mais uma tese de doutorado do PPGICS ganha menção honrosa

por
Graça Portela
,
30/11/2017

Pela segunda vez em 2017, outra tese de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS)/Icict, é premiada. Desta vez, foi a de Carla Garcia, intitulada "Comunicação e Desrazão: entre contextos e mediações, o direito à voz da pessoa com esquizofrenia", que recebeu menção honrosa área de Ciências Humanas e Sociais, no Prêmio Oswaldo Cruz de Teses, oferecido pela Fundação Oswaldo Cruz. 

Orientada pela pesquisadora Inesita Soares de Araujo, do Laboratório de Comunicação e Saúde (Laces/Icict) e do PPGICS, Carla Garcia realizou a sua pesquisa de campo durante 11 meses no Museu de Imagens do Inconsciente, onde ouviu 37 pacientes. Em seu trabalho, ela identificou e definiu "itinerários terapêuticos, contextos existencial e situacional, mediações, situações de voz e silenciamento, lugares de interlocução, estratégias enunciativas e de visibilidade" de pessoas vivendo com esquizofrenia. 

Outra tese do PPGICS premiada em 2017 foi a da ex-aluna Raquel Aguiar - "Fazer o bem sem ver a quem? Visibilidades e invisibilidades discursivas na doação de medicamentos para doenças negligenciadas". Aguiar, também orientanda da Inesita Soares de Araujo, recebeu a menção honrosa na categoria Interdisciplinaridade do Prêmio Capes de Tese 2017, realizado pela coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O Prêmio Oswaldo Cruz de Teses foi instituído pela Presidência da Fiocruz buscando distinguir teses de elevado valor para o avanço no campo da Saúde. A premiação foi dividida em quatro áreas temáticas: saúde coletiva; ciências biológicas aplicadas à saúde e biomedicina; ciências humanas e sociais; e medicina. Além das premiações por área, foram concedidas seis menções honrosas e, durante o evento, haverá o lançamento do portfólio “Pesquisas para o SUS - Uma parceria academia, serviços de saúde e sociedade civil – Rede Saúde Manguinhos (RSM)”, organizado pela Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB)/Fiocruz.  

A premiação ocorrerá na segunda-feira, dia 4 de dezembro, às 9h, no Museu da Vida, que fica no campus Manguinhos da Fiocruz, na Av. Brasil, 4.365, em Manguinhos, Rio de Janeiro (RJ).

Leia abaixo o resumo da tese de doutado de Carla Garcia:

Resumo: Partindo da premissa de que o direito à comunicação é imprescindível ao direito à saúde, principalmente se pautado pelo princípio da equidade, este estudo teve como objetivo dimensionar e delinear essa relação, tomando como referência as pessoas com esquizofrenia e os contextos e as mediações que conformam seu direito a voz e/ou silenciamento na busca por cuidado e bem-estar em seus itinerários terapêuticos e trajetórias de vida.

Com amparo teórico na perspectiva da Produção Social dos Sentidos, a pesquisa de campo foi realizada no Museu de Imagens do Inconsciente, com 11 meses de convívio, relacionamentos e estabelecimento de vínculos com 37 pacientes da instituição, que se tornaram personagens e protagonistas da pesquisa. Com recurso à Observação Participante, o Itinerário Terapêutico e a Entrevista, foram reunidos percepções, dados e informações que, descritos e interpretados, resultaram numa Etnografia da Comunicação e nove análises individuais em profundidade. Nessas análises, foram identificados e definidos itinerários terapêuticos, contextos existencial e situacional, mediações, situações de voz e silenciamento, lugares de interlocução, estratégias enunciativas e de visibilidade.

A pesquisa permitiu constatar que, após a Reforma Psiquiátrica, as pessoas com esquizofrenia foram integradas, porém não incluídas socialmente. Existentes e visíveis como membros de um grupo ou categoria social, a elas são atribuídas nomeações, identidades e uma visibilidade, negativa e às avessas, qualificada de modo estigmatizado e discriminatório a partir da loucura e de seus pré-construídos da irracionalidade, incapacidade, anormalidade e por possuírem um discurso sem sentido. Esta inscrição social as visibiliza a partir de sua dimensão biomédica, invisibilizando-as enquanto sujeito social, histórico, político, cultural e comunicacional. Essas pessoas são deslocadas para o “outro lado” das linhas abissais dos padrões sociais e da racionalidade, que servem de justificativa para sua falta de credibilidade, determinando a negação de seu direito a voz nos serviços de saúde e na sociedade.

Nesse cenário, foi mapeado um grande número de contextos e de fatores - espaços, situações, vivências, estruturas simbólicas e físicas - que promovem a mediação entre seu direito a voz e sua silenciamento, em múltiplas combinações e intensidades, determinando um gradiente sempre instável de poder simbólico. Mediações que atuam de modo distinto com cada um dos protagonistas, podem ser consideradas de “dupla face” e se destacam por revelar a dependência em relação ao outro, aquele que está “deste lado” da linha abissal da racionalidade.

Observou-se que dentro da mesma categoria há uma série de desigualdades, que permitem que tenham mais ou menos capital simbólico; nem todos manejam suas identidades da mesma maneira e o lugar de interlocução de “maluco” e a curatela tanto podem silenciar quanto permitir ascensão social e discursiva.

As lutas dessas pessoas por direito a voz, saúde e inclusão social passam obrigatoriamente por sua reinscrição nas cenas social e discursiva e por assumirem novos lugares de interlocução, nos quais sejam considerados como sujeitos individuais, subjetivos, distintos entre si e dotados de legitimidade como seres humanos e sociais, o que lhes permitiria fazer-se ver, ouvir e crer. Nenhuma dessas condições aplica-se ao lugar de interlocução de pessoa com esquizofrenia, doente mental ou paciente psiquiátrico, pelo qual precisam conviver com a completa falta de credibilidade e a negação de seu direito à comunicação.

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