A pesquisa no campo da saúde coletiva foi o tema central da 2ª reunião da Câmara Técnica de Pesquisa da Fiocruz, realizada no dia 1º de junho, no auditório da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), com a participação da vice-diretora de Pesquisa do Icict, Renata Gracie.
O objetivo do encontro, promovido pela Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz), foi discutir desde o fomento às políticas e estratégias em saúde coletiva, tendo como foco a produção institucional para o fortalecimento da pesquisa da instituição e do Sistema Único de Saúde (SUS).
Abrindo o debate, Tatiana Wargas de Faria Baptista, coordenadora do Programa de Saúde da Criança e da Mulher do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), relembrou o papel histórico da Fundação na produção de conhecimento no campo da saúde coletiva e na consolidação do movimento sanitário, incluindo, recentemente, a regulamentação da profissão de sanitarista.
Para Tatiana, a saúde coletiva deve ser reconhecida como um campo estratégico para compreender e enfrentar os grandes desafios sanitários contemporâneos, articulando ciência, políticas públicas, democracia, justiça social e fortalecimento do SUS. A pesquisadora ressaltou ainda o caráter transversal e multidisciplinar da pesquisa em saúde coletiva e sugeriu como agenda estratégica, os seguintes eixos prioritários: emergência climática e seus impactos; arboviroses; doenças infecciosas; desigualdades raciais; territoriais e de classe; saúde da mulher (mortalidade materna, violência sexual); saúde mental; e profissionalização do trabalho.
Dentro dessa perspectiva, o diretor da Ensp, Marco Menezes, reforçou a necessidade de uma agenda científica que esteja fundamentada nos determinantes sociais da saúde como questões socioambientais, equidade, racismo, capacitismo, etarismo e violências, especialmente contra a mulher.
Andrea Sobral, vice-diretora de Pesquisa da Ensp, defendeu o reconhecimento da saúde coletiva como um campo estratégico de pesquisa para o fortalecimento do SUS, capaz de articular respostas às crises contemporâneas — climáticas, tecnológicas, sociais e epidemiológicas — por meio de uma agenda integrada, interdisciplinar e orientada para a transformação da realidade sanitária brasileira.
A pesquisadora propôs o reconhecimento da saúde coletiva como área de pesquisa própria, e não apenas como tema transversal. E propôs a estruturação de editais e programas de pesquisa com base em temas transversais, promovendo cooperação entre diferentes unidades da Fiocruz. Além da criação de um Fórum Permanente SUS Integrado, reunindo especialistas de diversas áreas para definição coletiva de prioridades científicas; a formação de grupos de trabalho permanentes para construção de agendas compartilhadas de pesquisa e a coparticipação de unidades de saúde coletiva e unidades biomédicas/laboratoriais para fortalecer o caráter interdisciplinar das pesquisas.
Sobre a elaboração de editais de fomento à pesquisa, Sobral sugeriu a criação de cinco grandes eixos: Políticas, Planejamento, Gestão e Cuidado em Saúde; Interdisciplinaridade em Saúde Coletiva (Ciências Sociais e Humanas); Epidemiologias e Informação em Saúde; Trabalho, Educação e Saúde e Translação do Conhecimento e Inovação em Políticas Públicas.
A pesquisa nas unidades
A ciência e a saúde não devem ser compreendidas apenas como questões biomédicas, mas também como objetos das ciências humanas e sociais. Essa foi uma das mensagens centrais da apresentação de Dominichi Sá, vice-diretora de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz (COC), ao traçar um panorama da produção científica da unidade.
Ao abordar prioridades, desafios e interfaces da COC com o Fórum Oswaldo Cruz, Dominichi destacou a necessidade de renovação dos quadros de pesquisa e de atualização dos programas existentes. Também apontou como estratégicas a valorização de novos talentos e o fortalecimento de ações voltadas a bolsistas de iniciação científica e pós-doutorandos; a prospecção de oportunidades de financiamento; a ampliação do núcleo de apoio a projetos; a integração da pesquisa a redes de excelência nacionais e internacionais; a promoção da ética na pesquisa; a atualização de indicadores científicos; a diversificação de formatos, linguagens e públicos para a divulgação dos resultados; e a realização de um censo da pesquisa na COC, com o objetivo de mapear projetos, grupos e temas estratégicos.
Diante de um cenário marcado pela crescente competição por recursos, Dominichi defendeu que a avaliação da pesquisa deve priorizar seu impacto social, e não apenas indicadores quantitativos de produtividade.
A preservação da memória institucional e a produção de sentido histórico integram a missão da COC. Suas principais linhas de pesquisa abrangem história das ciências e da saúde, divulgação científica e patrimônio cultural. Entre as iniciativas recentes voltadas à internacionalização da pesquisa, destacou-se o edital Proep-Inter 2025, que financia quatro projetos desenvolvidos em parceria entre instituições do Brasil, de Portugal e de países africanos.
Renata Gracie, vice-diretora de Pesquisa do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), situou a trajetória do Instituto no contexto da consolidação da saúde coletiva e da criação do SUS. Segundo ela, a atuação do Icict contribui diretamente para a democratização do acesso à informação em saúde.
A pesquisadora destacou três laboratórios estruturantes da unidade: o Laboratório de Informação em Saúde, o Laboratório de Informação Científica e Tecnológica em Saúde e o Laboratório de Comunicação e Saúde. Também ressaltou a contribuição do Icict para o desenvolvimento e a aplicação de técnicas de geoprocessamento e sistemas de informação geográfica em saúde pública, envolvendo cartografia digital, estatística espacial e gestão de bases de dados. As informações produzidas subsidiam análises da situação de saúde, apoiando diagnósticos e processos de tomada de decisão por gestores públicos e pela população.
O Brasil dispõe de um amplo conjunto de sistemas de informação que acompanham diferentes etapas da vida da população e servem de base para a formulação de indicadores e políticas públicas, como o Sisap-Idoso. Entre observatórios, plataformas de ciência de dados e inquéritos populacionais, Gracie destacou o Observatório de Clima e Saúde, iniciativa do Icict que completou 15 anos. O observatório incorpora a perspectiva da injustiça climática, ao disponibilizar informações sobre condições de saúde nos diferentes territórios do país. Esses dados podem subsidiar desde ações de mitigação das emissões de gases de efeito estufa até estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas.
Isabela Soares, coordenadora do Programa de Políticas Públicas e Modelos de Atenção e Gestão à Saúde (PMA), enfatizou o papel da iniciativa na indução de articulações entre unidades da Fiocruz e entre a Fundação, instituições acadêmicas, gestores públicos e movimentos sociais. Atualmente, 30 projetos de pesquisa, envolvendo 13 unidades e um escritório da Fiocruz, recebem apoio por meio de editais lançados pelo programa.
Segundo Soares, a saúde coletiva ocupa posição de destaque na produção científica da Fundação. O Observatório Fiocruz de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, vinculado à Coordenação de Informação e Comunicação da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação, é um espaço de divulgação que mostra a relevante produção da Fiocruz naquela área.
Ela também argumentou que os investimentos em saúde coletiva apresentam elevada capacidade de retorno social, combinando custos relativamente baixos com resultados expressivos. Para ela, a política de financiamento à pesquisa deve contemplar tanto as áreas biomédicas quanto a saúde coletiva, cuja produção científica contribui para enfrentar desafios contemporâneos, promover o desenvolvimento socioeconômico e reduzir iniquidades em saúde.
Saúde da população negra
A pesquisadora Marilda Gonçalves, da Fiocruz Bahia, apresentou dados que evidenciam como a população negra permanece mais exposta a doenças socialmente determinadas. As informações, produzidas pela Rede de Saúde da População Negra, revelam um conjunto persistente de desigualdades raciais.
Entre os indicadores destacados, estão as disparidades de acesso à educação entre mulheres brancas e negras, a maior vulnerabilidade da população negra no mercado de trabalho e sua menor presença em cargos de gestão. Marilda também chamou atenção para o fato de as mulheres negras constituírem o grupo mais afetado pelos feminicídios e por problemas de saúde relacionados à obesidade.
No Nordeste, acrescentou, as desigualdades raciais se expressam em rendimentos mais baixos para pessoas pretas e pardas e em menores oportunidades de inserção e permanência no mercado de trabalho. Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas capazes de enfrentar os determinantes sociais e raciais das desigualdades em saúde.
Agenda de encontros
A próxima reunião da Câmara Técnica de Pesquisa da VPPCB, integrada com a Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic/Fiocruz), irá debater o Fórum Oswaldo Cruz e está marcada para o dia 7 de julho. A retomada do tema saúde coletiva com as apresentações das demais unidades da Fiocruz será discutida na reunião do dia 4 de agosto.