“Ando lendo e sofrendo na escrita de Conceição Evaristo. Ela fala sobre a gente. Se eu pudesse, mudaria o fim de alguns contos que li, seria bom um fim feliz. Eu, como leitora e menina negra, sofreria menos”. É assim que começa o texto vencedor do 4º Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil, apresentado na manhã de terça-feira (27/10), no auditório do Museu da Vida Fiocruz.
O conto da menina negra de Ipojuca, na Região Metropolitana de Recife, teve um final feliz. Jennifer Yorrahra da Silva França, de 16 anos, venceu a 4ª edição do Concurso Portinho Livre. E, com isso, a jovem foi convidada pela Fiocruz a viajar para o Rio de Janeiro e receber o prêmio. Ela veio acompanhada de outras duas mulheres, retratadas em sua história: a prima e responsável Joyce Wênia Rafaely da Silva e sua professora Nivia Tamires de Souza Cruz.
O texto ‘Minha Maria’ foi selecionado entre os 715 trabalhos inscritos nesta edição do concurso, que teve como tema ‘Quem cuida de quem cuida? Cuidado e desigualdades no Brasil’. A premiação ocorreu durante a cerimônia de abertura da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da Fiocruz e contou com a exibição de uma leitura dramatizada do texto de Jennifer, feito pela atriz Juliane Cruz.
Escrevivência
Aluna da Escola de Referência em Ensino Médio José Mário Alves da Silva, Jennifer constrói uma narrativa em primeira pessoa no formato de uma carta a uma mãe já falecida, que enfrentou dificuldades para criar os filhos, após ser abandonada pelo pai das crianças. Em diálogo com a escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo, o texto aborda as marcas do racismo nas desigualdades que atravessam o trabalho de cuidado.
A jovem contou que, quando viu o tema do concurso, fez uma associação imediata com a trajetória de sua mãe, já falecida. “A perda da minha mãe foi muito dolorosa. Mas, quando vi essa oportunidade de escrever sobre ela, me perguntei: por que não? Por que não falar de uma mulher que cuidou de mim e que abriu espaço para que eu fosse seguindo? Ela hoje não está mais presente, mas eu sigo com ela”, disse, acrescentando que teve o apoio de um clube de leitura antirracista do qual participa, o Clube Nzinga, criado pela professora Nivia, que também a incentivou a participar do concurso.
"Escritas como a de Jennifer nos fazem refletir sobre como a criatividade, a arte e a consciência dos nossos desafios coletivos são antídotos poderosos para os problemas que herdamos do passado, e que persistem fortes no presente", afirma Adriano da Silva, diretor do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz). "Os textos vencedores do concurso Portinho Livre nos dão um sopro de esperança sobre futuros possíveis para o país, ao revelarem uma juventude muito potente e engajada. Em tempos de obscurantismo, conhecer pessoas como a Jennifer nos restitui a confiança no que é o Brasil de verdade."
Textos vencedores em livro
O segundo lugar do concurso ficou com Alice de Jesus Lima Campos, de Feira de Santana, na Bahia; e o terceiro com Sofia Lorena Silva Araújo, de Paraíso do Tocantins, no Tocantins. A premiação dos três primeiros lugares inclui um cartão presente de R$ 1 mil tanto para as autoras quanto para as professoras indicadas no ato da inscrição.
Além da premiação, o concurso prevê a publicação de uma coletânea com textos selecionados pela banca avaliadora, formada por profissionais da Fiocruz. Nesta edição, diante da qualidade e da diversidade das produções recebidas, o número de trabalhos que farão parte do livro foi ampliado de 30 para 40. As narrativas abordam diferentes dimensões do cuidado e das desigualdades sociais.
Entre os temas presentes nos textos estão a divisão do trabalho doméstico entre homens e mulheres, a sobrecarga das cuidadoras, as condições de trabalho das trabalhadoras domésticas e os desafios enfrentados por famílias que cuidam de pessoas idosas ou com deficiência. Os estudantes também refletem sobre as desigualdades de raça e gênero e sobre a importância das políticas públicas para transformar as condições em que o cuidado é realizado.
SNCT
O 4º Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil é uma iniciativa do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), com incentivo da Fundação de Apoio à Fiocruz (Fiotec). A ação integra o projeto SUS nas Escolas, que promove o diálogo entre saúde, educação e sociedade, compreendendo a saúde para além da ausência de doenças e como um direito construído coletivamente.
A premiação ocorreu durante a abertura da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) da Fiocruz, que acontece até 1º de novembro, com atividades em nove estados brasileiros. Em 2026, a SNCT tem como tema Ciência delas, proposto pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com ações de divulgação científica, oficinas, exposições e atividades educativas.