Pesquisador do Laboratório de Informação Científica e Tecnológica em Saúde (LICTS), Carlos Saldanha é líder do grupo de pesquisa Estudos Interdisciplinares sobre Ciências, Tecnologias e Políticas Públicas em Saúde e Ambiente. Em seu trabalho, Saldanha se dedica ao estudo de diversas dimensões da realidade atual, como meio ambiente, saúde, economia e democracia.
Em entrevista, Carlos Saldanha responde a algumas questões sobre 'Esquerda de Ruptura: Insurgência para um mundo que começa', sintetizando o livro como "uma reconfiguração profunda do que entendemos por política".

Entrevista
Seu livro começa com uma imagem forte: escrever “à beira da noite”. Há algo de urgência, mas também de lucidez nesse gesto. De onde nasce essa escrita?
Carlos Saldanha — Ela nasce de um desconforto que deixou de ser apenas intelectual e passou a ser existencial. Não escrevo porque tenho uma teoria a defender, mas porque o mundo, como está organizado, se tornou insustentável. Há uma sensação difusa de colapso, mas que, na verdade, é muito concreta: guerras naturalizadas, desigualdades estruturais, devastação ambiental, esvaziamento da política. Escrever “à beira da noite” é reconhecer que estamos num tempo limite, mas também recusar a ideia de que esse limite seja o fim. É justamente nesse limiar que a insurgência aparece, não como explosão súbita, mas como um gesto contínuo de recusa e criação.
Você propõe a ideia de “insurgência” como eixo central. Mas ela não aparece no sentido clássico de revolução. O que exatamente você quer dizer com esse conceito?
Carlos Saldanha — Eu quis tirar a insurgência do imaginário estreito que a reduz à tomada do poder. Para mim, ela é algo mais profundo: uma transformação das próprias bases que organizam a vida social. Não se trata apenas de quem governa, mas de como a vida é estruturada. Isso inclui a forma como nos relacionamos, produzimos, cuidamos, imaginamos o futuro. A insurgência, nesse sentido, é um processo. Ela envolve ruptura com a colonialidade, com o racismo estrutural, com a exploração econômica, mas também com formas mais sutis de dominação, como a captura da atenção ou o esgotamento da imaginação. É um movimento que reconstrói o mundo a partir do comum, da autonomia e do cuidado.
Há uma crítica muito contundente à esquerda contemporânea. Em vários momentos, você sugere que ela perdeu algo essencial. O que foi perdido?
Carlos Saldanha — A capacidade de produzir sentido. A esquerda passou, em grande medida, a reagir ao mundo em vez de interpretá-lo e transformá-lo. Ela aceitou os enquadramentos da ordem dominante, adotou a linguagem dos adversários e, com isso, foi perdendo sua autonomia narrativa. Além disso, houve um deslocamento estratégico importante. A política de base foi sendo substituída por uma confiança excessiva nas instituições, como se fosse possível transformar a realidade apenas por meio de arranjos técnicos ou jurídicos. Isso gerou um distanciamento das maiorias populares. E há um ponto mais delicado: a dificuldade de fazer autocrítica. Durante muito tempo, a esquerda concentrou sua energia em denunciar o outro, mas evitou examinar seus próprios limites. Sem esse movimento, não há reinvenção possível.
Você insiste bastante na ideia de que vivemos no “Capitaloceno”, e não no “Antropoceno”. Por que essa distinção é tão importante?
Carlos Saldanha — Porque ela define quem é responsável pela crise. Quando falamos em Antropoceno, parece que toda a humanidade contribuiu igualmente para o colapso ecológico. Isso dilui responsabilidades e apaga conflitos históricos. O Capitaloceno, ao contrário, aponta para um sistema específico: o capitalismo, com sua lógica de acumulação infinita, exploração da vida e destruição da natureza. Ele permite identificar quem lucra com a devastação e quem sofre suas consequências. Essa distinção não é apenas conceitual. Ela é política. Sem nomear o sistema, não conseguimos enfrentá-lo.
Um dos aspectos mais interessantes do livro é a estrutura em “vetores”. Por que você optou por esse formato, em vez de uma argumentação linear mais tradicional?
Carlos Saldanha — Porque o mundo que estamos tentando compreender não é linear. A ideia de vetor me permite trabalhar com direções, intensidades, movimentos que se cruzam. Cada vetor é uma força que aponta para uma possibilidade de ruptura. Eu quis evitar a lógica do manual, da receita. Toda vez que a política se transforma em fórmula, ela perde potência. A emancipação real acontece no terreno da experiência, do conflito, do inesperado. Além disso, há uma escolha metodológica importante: a repetição. Alguns conceitos reaparecem ao longo do livro, mas sob perspectivas diferentes. Isso não é redundância. É uma forma de aprofundar. A dominação se sustenta pela repetição. A resistência também precisa aprender a insistir.
O “cuidado radical” aparece como um conceito central. Em um primeiro momento, ele pode parecer algo mais próximo da ética privada do que da política. Como você articula isso?
Carlos Saldanha — Essa separação entre ética e política é uma construção moderna que serve muito bem ao poder. O cuidado, quando pensado radicalmente, é profundamente político. Ele não é apenas um gesto individual. É uma infraestrutura da vida. Sem cuidado, não há reprodução social, não há comunidade, não há futuro. O problema é que, no capitalismo, o cuidado é invisibilizado, precarizado, muitas vezes feminizado e desvalorizado. Transformá-lo em eixo político significa reorganizar a sociedade a partir da vida, e não do lucro. Significa reconhecer nossa interdependência e construir formas coletivas de sustentar a existência.
Há também uma crítica ao mito do progresso. Isso pode soar contraintuitivo para quem associa progresso à melhoria de vida. O que está em jogo nessa crítica?
Carlos Saldanha — O problema não é a ideia de melhorar as condições de vida. O problema é o tipo de progresso que se tornou dominante. Um progresso baseado no crescimento ilimitado, na aceleração constante e na exploração de tudo que pode ser transformado em recurso. Esse modelo entrou em choque com os limites do planeta e com a própria dignidade da vida. O que proponho é uma ruptura com essa temporalidade. Precisamos reaprender a pensar o tempo, o ritmo, o que significa viver bem. É aí que o decrescimento entra, não como regressão, mas como libertação de uma lógica destrutiva.
Em vários momentos, seu texto se aproxima da poesia. Isso não é comum em ensaios políticos mais tradicionais. Por que essa escolha?
Carlos Saldanha — Porque há coisas que a linguagem puramente analítica não alcança. A política não é feita apenas de conceitos. Ela é feita de afetos, de imaginação, de memória, de dor. A forma do texto também é política. Se eu escrevo de maneira completamente técnica, corro o risco de reproduzir a mesma racionalidade que estou criticando. A poesia, nesse caso, não é ornamentação. É método. É uma forma de acessar dimensões da experiência que escapam à linguagem convencional.
Você fala de “esperança radical”, mas deixa claro que não se trata de otimismo. Como diferenciar essas duas coisas?
Carlos Saldanha — O otimismo é uma expectativa de que tudo vai dar certo. Ele pode ser ingênuo e até paralisante. A esperança radical é outra coisa. Ela é uma disciplina. Ela nasce da consciência da gravidade do momento, mas recusa a paralisia. É a decisão de agir mesmo sem garantias. É plantar sem saber se vamos colher. Essa esperança não depende de condições ideais. Ela se sustenta na prática, no vínculo, na construção cotidiana de alternativas.
Para fechar: se você tivesse que resumir em uma ideia o que é uma “esquerda de ruptura”, o que diria?
Carlos Saldanha — Eu evitaria resumir em uma fórmula, porque justamente uma esquerda de ruptura começa recusando fórmulas. Mas, se for necessário condensar, diria o seguinte: ela é, antes de tudo, uma reconfiguração profunda do que entendemos por política. Não se trata apenas de disputar o poder dentro das instituições existentes, nem de administrar com mais eficiência a mesma ordem que produz desigualdade, devastação e morte. Trata-se de deslocar o próprio terreno da política. Uma esquerda de ruptura questiona as bases que definem o que é possível, o que é racional e o que é aceitável. Ela rompe com a ideia de que governar é gerir o inevitável. Rompe com a dependência de mediações que afastam a política da vida concreta. Rompe com a naturalização da colonialidade, do racismo estrutural e da exploração como se fossem dados permanentes da realidade. Mas essa ruptura não é apenas negativa, não é só recusa. Ela é também construção. E aqui está o ponto mais exigente: trata-se de reinventar, no presente, formas de vida que não reproduzam a lógica que se pretende superar. Isso implica recolocar o cuidado como infraestrutura política, o comum como fundamento da organização social, a autonomia como prática coletiva e a imaginação como força material. Uma esquerda de ruptura, portanto, não é definida por um programa fechado, nem por um horizonte messiânico. Ela é um processo aberto, conflituoso, situado. Exige autocrítica constante, capacidade de aprender com as derrotas e disposição real de se implicar nas contradições do mundo. E talvez o mais difícil: ela exige coragem para abandonar zonas de conforto. Coragem para não se adaptar ao possível estreito. Coragem para sustentar conflitos que não cabem nos limites da governabilidade. Coragem, enfim, para afirmar que a política não pode continuar sendo a arte de administrar o desastre, mas precisa voltar a ser a prática de criar condições para que a vida floresça de outra maneira.