A Fiocruz recebeu, na última semana, uma delegação do Instituto Nacional de Saúde (INS) de Moçambique para reuniões de trabalho voltadas à estruturação da Escola Nacional de Saúde Pública do país - uma colaboração firmada no ano passado durante visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Moçambique. Os visitantes estiveram na Fiocruz, entre os dias 23 e 27 de fevereiro, para uma série de reuniões técnicas, coordenadas pela Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic), com passagens em diferentes unidades da Fundação. A programação incluiu discussões em torno de quatro eixos estratégicos: saúde digital; economia da saúde; planejamento e gestão em saúde; e clima e saúde
“A cooperação com Moçambique é um dos exemplos mais bem-sucedidos de cooperação estruturante do Brasil no campo da saúde, tendo a Fiocruz como protagonista, em uma parceria de longa data voltada ao fortalecimento do sistema de saúde do país, ampliando sua capacidade de resposta às emergências em saúde e a tantos outros desafios, como os efeitos das mudanças climáticas e o impacto das doenças crônicas”, destacou o presidente da Fiocruz, Mario Moreira. “A Fiocruz fortalece essa cooperação com importantes cooperações no campo da educação, já materializada na estruturação da Escola de Saúde Publica de Moçambique, projeto inspirador para se pensar numa escola de saúde pública de língua portuguesa. É nosso compromisso trabalharmos juntos por um Sul Global fortalecido, caminhando numa relação de trocas e solidariedade para o maior acesso da população à promoção da saúde”.
Observatório de Clima e Saúde
Entre as atividades da agenda, no penúltimo dia de visitas, integrantes da delegação visitaram o Observatório de Clima e Saúde do Icict/Fiocruz. O encontro teve como objetivo apresentar ferramentas e pesquisas desenvolvidas pela iniciativa e discutir caminhos para ampliar a colaboração entre as duas instituições na área de clima e saúde, incluindo cursos de capacitação e atividades de pesquisa.
“Eles ficaram muito entusiasmados com as tecnologias que foram apresentadas pelo Observatório. Algumas são facilmente adaptáveis para Moçambique, outras que devem ser pensadas conjuntamente porque dependem de dados que devem ser produzidos localmente”, afirmou Christovam Barcellos, integrante da coordenação do Observatório de Clima e Saúde.
Além das tecnologias mostradas, a visita ao Observatório serviu para fortalecer a proposta formativa em clima e saúde no país africano. Entre as possibilidades discutidas, estão o oferecimento de disciplinas de pós-graduação, cursos voltados a profissionais de saúde e capacitações mais técnicas, direcionadas a especialistas em Tecnologia da Informação. A expectativa é que a cooperação avance ao longo dos próximos meses, especialmente considerando o contexto de vulnerabilidade climática do país.
"Moçambique é um dos países mais afetados pelas mudanças climáticas, com vulnerabilidades relacionadas a saneamento, infraestrutura urbana, secas e furacões. Por isso, independentemente de qual for a escolha deles, tenho certeza de que em 2026 iremos dedicar uma atenção especial a essa cooperação”, disse o coordenador.
Avaliação moçambicana
Na avaliação da coordenadora do Programa Estratégico de Saúde e Ambiente do INS, Tatiana Marrufo, a visita reforça a colaboração com o Observatório, principalmente na área de pesquisa. “Nossas impressões foram muito positivas em relação a esta visita. Para mim, em particular, como parte da área de clima e saúde, foi muito produtiva, porque nós já temos uma colaboração de muitos anos com o Observatório, mais na componente da pesquisa e da observação em saúde”, afirmou.
Segundo a representante do INS, a experiência brasileira demonstra como é possível integrar pesquisa, formação e desenvolvimento tecnológico para fortalecer sistemas de saúde, algo importante para o desenvolvimento dessa área no país.
Esses sistemas de tratamento, visualização e análise de dados vêm sendo desenvolvidos pelos pesquisadores do Observatório, Heglaucio Barros, Raphael Saldanha e Vanderlei Pascoal. O trio deve colaborar na formação de pessoal e construção de novos aplicativos voltados para alertas precoces e avaliação de riscos climáticos, uma das demandas urgentes de Moçambique, como destacou, durante a visita, o diretor do INS, Eduardo Samo Gudo. “Nós conseguimos perceber claramente como o Observatório de Clima e Saúde constrói essa ligação entre pesquisa e formação, associada ao desenvolvimento tecnológico. É uma componente muito importante e que ainda precisamos reforçar no nosso contexto”, disse.
Entre os encaminhamentos do encontro está a formação de um grupo de trabalho entre as equipes dos dois países para discutir a construção de formações para profissionais de saúde em Moçambique, com a possibilidade de que a iniciativa se estenda para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOPs).
“Temos a perspectiva de usar a base de cursos de pós-graduação ou cursos de especialização já existentes, reforçarmos estes cursos, fazermos uma avaliação da sua implementação no país e depois ir construindo, de maneira escalonada, módulos específicos que podem, a médio e longo prazo, já fazer parte de um curso mais estruturado para a componente de clima e saúde”, explicou Tatiana.