Na sexta-feira (10/4), o Icict promoverá a aula de abertura do curso de atualização Comunicação e Saúde em Tempos de Desinformação, com a participação dos professores e pesquisadores Marco Schneider e Ana Regina Rêgo, da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD). A aula aberta acontecerá na Fiocruz Brasília, das 9 às 12h.
Voltado a profissionais de comunicação vinculados ao Ministério da Saúde, o curso é oferecido pela primeira vez na Fiocruz Brasília. Com a iniciativa, o Icict reforça seu papel como protagonista do debate sobre o tema da desinformação, conectando diferentes campos de conhecimento.
Com aulas presenciais, às sextas-feiras, o curso busca qualificar profissionais graduados que atuam com comunicação e saúde, com o objetivo de oferecer possibilidades de ação conjunta entre a academia e a sociedade sobre desinformação científica e saúde, para promover reflexões e estratégias para atuar em contextos de desinformação.
Os temas abordados estão divididos em cinco módulos:
- Cenários e tendências de Comunicação e Saúde;
- Desinformação Científica em Saúde;
- Ética e integridade da informação em saúde;
- Sistemas de dados e de informação
- Estratégias de Comunicação
Os pesquisadores Wilson Borges e Izamara Bastos, ambos do Laboratório de Comunicação e Saúde (Laces), coordenam a iniciativa. Eles conversaram com a equipe do site do Icict sobre o papel do Instituto no combate à desinformação e sobre a importância do lançamento do curso.
Confira a entrevista com Izamara Bastos e Wilson Borges:
A temática da desinformação é uma prioridade para o Icict. O que representa para a unidade a realização deste curso de atualização em Brasília?
Wilson Borges: Em primeiro lugar, representa a centralidade da comunicação e do Icict num processo que atingiu (e ainda atinge) a nossa sociedade. É importante lembrar o que representou a circulação de informações imprecisas, falsas e desorientadoras durante a pandemia de Covid-19. Não foram raros os trabalhos acadêmicos apontando que a desinformação contribuiu decisivamente para que o número de pessoas mortas se elevasse. O que temos observado desde então é que o fenômeno não diminuiu depois da pandemia. Ele, infelizmente, se mantém e continua a produzir consequências muito ruins sobre a vida das pessoas. Este curso é resultado de uma pesquisa coordenada pelo saudoso amigo e pesquisador Igor Sacramento e por mim, nas cinco regiões do Brasil, para compreender quais eram as questões que, naquele momento (a pesquisa foi realizada entre 2022 e 2024), mais impactaram as atividades de profissionais que trabalham com Comunicação e Saúde. Esse nos parece o caráter mais inovador do curso: ele é resultado de uma escuta atenta dos desafios da área.
Izamara Bastos: O Icict e a Fiocruz já vêm, há algum tempo, se debruçando sobre a temática da “desinformação em saúde”, reforçando o nosso reconhecimento sobre a centralidade deste debate para a sociedade. Este curso é fruto de muitas reflexões anteriores e conta com a participação de diversos profissionais, amplamente qualificados, para um aprofundamento dessas discussões. Realizarmos esta turma em Brasília é a oportunidade de não apenas ampliarmos o debate - com diversos profissionais que atuam na interface da Comunicação e Saúde na capital do país, como também é uma oportunidade de partilharmos experiências e impressões com profissionais vinculados ao Ministério da Saúde e que atuam em atividades e ações de Comunicação e Saúde. Temos a certeza de que a ampliação do debate sobre desinformação em saúde é essencial para o cenário que estamos enfrentando há bastante tempo. Estamos muito felizes com a oportunidade de realizarmos esta turma em Brasília e muito animados com o apoio e interesse que o Ministério da Saúde tem demonstrado.
O que vocês destacariam entre as disciplinas ofertadas?
Izamara Bastos: O curso está estruturado em cinco módulos - cada um deles contará com mediadores - e uma diversidade de temas. Buscamos desenhar o curso a partir de uma perspectiva interdisciplinar – que se reflete na formação do corpo docente - reiterando nossa preocupação em ilustrar bem a interface da Comunicação e da Informação em Saúde como uma marca importante do nosso Instituto. Também destacaríamos o modo de distribuição dos temas ao longo dos encontros previstos. Os cinco módulos estão distribuídos da seguinte forma: Cenários e Tendências de Comunicação e Saúde; Desinformação Científica em Saúde; Ética e Integridade da Informação em Saúde; Sistemas de Dados e de Informação em Saúde; e Estratégias de Comunicação e Saúde. Tanto no grupo de mediadores de módulos quanto no conjunto de professores temos profissionais do Icict e/ou profissionais formados pelo Instituto. Desta forma, é um curso que espelha muito nossa unidade e os debates aqui desenvolvidos, sempre buscando refletir coletivamente sobre os temas. E muito importante: considerando o caráter dialógico e polifônico do curso desde a sua concepção. A escuta de profissionais de diversas regiões do país no momento de concepção das aulas e a escuta de diversos profissionais – que contribuirão com as discussões sobre desinformação em saúde foram e serão essenciais em todo o processo.
Wilson Borges: O curso reflete três questões muito centrais para nossas atividades de pesquisa e ensino no Icict. A primeira delas é partir da escuta, nesse caso, dos profissionais que trabalham com Comunicação em Saúde. Desta forma conseguimos deslocar o olhar para que o curso não seja apenas uma oferta de conteúdos, e sim, de respostas a demandas identificadas. A segunda questão é que não podemos partir de uma noção de que um curso concebido na Região Sudeste vai responder às necessidades de outras regiões do país - o que reforça ainda mais a importância da escuta. Vale lembrar aqui que, por meio do Projeto Inova, pudemos identificar que a desinformação, embora um fenômeno que atingia a todos e todas, os afetava de forma diferente, com especificidades em cada uma das regiões. A terceira questão é o que estamos classificando como diálogo entre o local e o nacional. A partir da escuta de profissionais das cinco regiões do Brasil, tivemos a chance de montar uma estrutura em que tanto os desafios e êxitos locais quanto os nacionais podem ser compartilhados, enfrentados, explorados e valorizados.
Qual é a importância de o Icict lançar um curso de atualização com a temática atualíssima da desinformação?
Wilson Borges: Uma iniciativa como essa, lançada pelo Icict, mostra não apenas seu compromisso com a ciência, a pesquisa e a evidência, mas também com a sua indissociabilidade com o SUS e seu compromisso com a sociedade brasileira, uma vez que traz para o centro das suas preocupações a produção e a circulação de informações imprecisas, falsas, e com potencial para desorientar as ações das pessoas.
Izamara Bastos: Como pontuei anteriormente, a proposta deste curso reforça o compromisso do Instituto e da Fiocruz com a Comunicação e a Informação em Saúde. Pensar o fenômeno da desinformação é fundamental. Se consideramos que a desinformação pode levar ao adoecimento e até a morte, o que estamos propondo com este curso é investir e aprofundar em um debate extremante urgente e atual. Não se trata de uma iniciativa isolada. Temos grandes profissionais pensando a desinformação no Brasil e no mundo e nos somamos a essas vozes que estão buscando compreender a desinformação como um fenômeno complexo e que necessita de um trabalho coletivo para o enfrentamento. A proposta deste curso busca diálogo com produções de conhecimentos realizadas anteriormente por diversos outros profissionais e esperamos que, a partir de um diálogo direto com profissionais que atuam no Sistema Único de Saúde, possamos vir a contribuir não apenas com as práticas dos comunicadores no dia a dia de seus trabalhos no SUS e para o SUS, mas desejamos reiterar nosso compromisso com a saúde da população.
Com os avanços tecnológicos, especialmente no campo da inteligência artificial (IA), podemos dizer que estamos em um estágio de enfrentamento da desinformação diferente do observado na pandemia? O que mudou?
Wilson Borges: Creio que sim! Mais pelo que a IA permite do que pela sua existência em si. É importante deixarmos claro que pensamos a Comunicação como processo, isto é, precisamos compreender que há uma etapa de produção e outra de circulação, que se fecha ou não na apropriação. A ausência dessa compreensão, por vezes, atrapalhou até a forma como poderíamos enfrentar o problema. Um exemplo concreto: durante a pandemia de Covid-19, a Fiocruz comunicou, por meio de um card, que celebrava legitimamente o fato de ter se tornado “uma instituição de referência no combate ao Covid-19, segundo a OMS” (estamos falando aqui da produção). Em seus canais, compartilhou essa informação (circulação) que chegou a milhares de pessoas (apropriação do conteúdo). Nesse caso, o processo da comunicação se desenvolveu da forma que a Fiocruz desejava. Entretanto, esse mesmo card sofreu alterações (ainda sem uso de IA, mas poderia ter sido com ajuda dessa tecnologia), sendo colocado em circulação (às vezes pelos mesmos, às vezes por outros canais), podendo impactar as pessoas de forma equivocada. Atualmente, a própria produção pode ser feita com uso da IA. Mas, no que toca à circulação e à forma como as pessoas vão, ou não, se apropriar daquele conteúdo não depende necessariamente da IA. Claro, ao alterar um dado elemento, ela produz consequências sobre as múltiplas formas como cada pessoa vai se relacionar com o conteúdo recebido. No entanto, ela não consegue determinar o que será recebido tampouco a forma como será recebido. Por isso é tão fundamental observarmos a Comunicação como um processo e esse é, seguramente, um dos elementos que está contido na proposta desse curso.
Izamara Bastos: A Inteligência artificial é uma realidade e precisamos nos apropriar cada vez mais das discussões a respeito. Se há muitos benefícios que a IA pode trazer, há também muitos riscos. Não há dúvidas que do momento do auge da pandemia de Covid-19 para os dias atuais houve um avanço tecnológico importante, também acompanhado de uma certa aproximação do público com o tema da desinformação. Além disso, entre o período da pandemia e os dias de hoje, houve uma maior institucionalização das estratégias de enfrentamento do que poderíamos chamar de “combate à desinformação”. Penso que a pandemia também nos levou a uma reflexão maior sobre as práticas de desinformação e nos direcionou para um certo aprendizado. Poderíamos pensar sobre as múltiplas iniciativas que surgiram (algumas de forma mais emergenciais, outras mais a médio prazo) para o enfrentamento às ações de desinformação. Hoje vemos diversas iniciativas de agências de checagem, discussões mais ampliadas sobre regulação de plataformas, diversas iniciativas discutindo integridade da informação, capacitação sobre educação midiática, entre tantas outras. Então, poderíamos pensar que a pandemia produziu também muitos aprendizados. É visível que de lá para cá houve, sim, um avanço da IA e por isso acreditamos que este curso traga em si a relevância de contribuir com esse debate. Assim como a IA permite hoje uma produção enorme de conteúdo (que merecem atenção e cuidado de todos), penso que hoje temos muito mais iniciativas que propõem reflexões mais sofisticadas – e que somente são possíveis graças ao aprendizado e os desafios que encontramos na época da pandemia. Há muitos desafios pela frente, e acredito que é na produção coletiva de conhecimento e no reconhecimento da Comunicação e da Informação em Saúde como centrais para a qualidade de vida da população, que vamos aprimorar inúmeras iniciativas em prol da saúde pública.
Seminário sobre desinformação
Em julho de 2025, representantes do Icict participaram da primeira edição do seminário 'Educação, Informação, Comunicação e Saúde: Proteções contra a Desinformação', realizado pela Fiocruz Bahia e parceiros. O evento promoveu debates sobre os desafios relacionados à desinformação em ciência e saúde, além de premiar trabalhos com o Prêmio Igor Sacramento, em homenagem ao pesquisador e professor falecido em abril do ano passado.
Por seu importante papel nos estudos e debates relacionados ao tema, o Icict receberá a segunda edição do seminário, em 2027.
Chamada pública do curso de Comunicação e Saúde em Tempos de Desinformação - Turma de Brasília